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Era uma vez uma menina de cabelos escuros e sorriso largo que se chamava Luzinha. Vestia sempre um pijama cor-de-rosa e adorava divagar pelos campos, colhendo flores e observando os ninhos dos pássaros. Vivia com o seu papá e a sua mamã num bosque, numa bonita casa de tijolos vermelhos e cerca branca, iguais às casas dos contos de fadas.
Mas muitas vezes, Luzinha sonhava sobre o que existia para além da sua cerca e das copas das árvores, das águas do riacho e dos ninhos dos pássaros. Por isso, num belo dia, pediu permissão ao papá ("se não estiveres na cama antes da meia-noite, vem para casa", heheheh) e saiu em busca de novas paragens e novas brincadeiras.

Percorria o seu caminho, saltitando e assobiando, com o seu pijama cor-de-rosa a dar um toque de alegria ao verde dos campos, quando chegou às margens de um enorme rio de águas turvas e agitadas. As margens do rio eram largas e pareciam praias desertas. Foi então que avistou um menino que brincava à beira de água, construindo castelos na areia grossa do rio, e colhendo seixos e pedras coloridas. A ondulação das águas destruía os castelos e as muralhas que o menino levantava e ele, furioso, pontapeava as ruínas que sobravam da passagem das ondas, e voltava novamente a construir o seu castelo exactamente no mesmo lugar. E as águas enfurecidas voltavam a arrastar o castelo consigo. E, furioso, o menino voltava a destruir tudo novamente.
Luzinha, no seu pijama cor-de-rosa, saltitando e assobiando, decidiu aproximar-se:
- Olá! Que estás a fazer? perguntou ela.
- Nada! resmungou imediatamente o menino.
- Eu sou a Luzinha! Tenho quase sete anos! E tu?
- Não sei! resmungou novamente o menino.
- O papá diz que o meu pijama é bonito, e é por isso que eu nunca o tiro! Não o achas bonito? questionou Luzinha.
- Não, é feio! ripostou rispidamente o menino.
- Pois eu acho os teus castelos bonitos! Porque os destróis?
- São as malditas ondas, retorquiu o menino depois de um momento em silêncio. Estão sempre a derrubar as minhas muralhas e arrastando consigo os meus seixos polidos e as minhas pedrinhas coloridas. Nem me dão tempo suficiente para terminar! Malditas ondas!
- Vá lá, não desanimes, respondeu Luzinha.
O menino sentou-se na areia, calmamente, pronto a escutar as palavras de Luzinha:
- O meu papá diz que o que começamos devemos sempre concluir, mesmo que saibamos que não conseguiremos obter os melhores dos resultados. Mesmo sabendo que as ondas vão sempre destruir o teu castelo, deves tentar sempre terminá-lo. Se desistires, significa que foste vencido. Se fores vencido ficas vazio e triste. Queres ficar triste?
- Não, eu só queria que estas ondas parassem, disse o menino choramingando.
- Mas elas não vão parar, tens de vencê-las, insistiu Luzinha.
- Mas como? Mal tenho tempo para pensar nisso que as ondas vêm e destroem tudo. E levem os meus seixos polidos e as minhas pedrinhas coloridas, que tanta maçada me deram a recolher. Têm cores tão bonitas os meus seixos…
Decidida, Luzinha respondeu-lhe:
- Eu ensino-te: porque não evitas as ondas? Constrói o teu castelo num local mais distante, onde as ondas não chegam!
Completamente estupefacto, o menino exclamou:
- Como não pensei nisso antes!?! Obrigado, obrigado! Que bom, que bom, assim vou poder terminar, ver o meu castelo todo construído com seixos e pedras de cor nas janelas e com torres altas brilhando ao sol! Como posso te agradecer?
- O meu papá diz que devemos dizer obrigado e agradecer com um sorriso, respondeu a menina do pijama cor-de-rosa. Disseste obrigado e fico contente apenas com isso. Só não quero que desistas mais das coisas que começares, sim?
- Sim, prometeu o menino.
As águas do rio acalmaram-se de repente, e as águas tornaram-se claras e cristalinas. E, saltitando e assobiando, Luzinha afastou-se, acenando uma ultima vez para o menino do qual não sabia o nome…

Continuando o seu devaneio, Luzinha vislumbrou, no meio do rio, uma minúscula ilhota, onde crescia uma árvore de frutos suculentos. Foi então que, observando com mais atenção, verificou que se encontrava alguém no topo da árvore de frutos suculentos. Luzinha decidiu aproximar-se: arregaçou as calças do seu pijama cor-de-rosa e atravessou o rio até a ilhota. Ao chegar, notou que era um menino que estava nos ramos mais altos e mais finos da árvore, chorando baixinho. Intrigada, Luzinha perguntou:
- O que se passa?
E o menino continuava chorando.
- Porque estás nesta ilha isolada, sozinho?
Entre soluços, o menino respondeu:
- Eu vivo aqui, esta ilha é minha! Plantei esta árvore de frutos suculentos, e vim finalmente recolher os seus primeiros frutos suculentos, mas, mas…
- E que ar delicioso eles têm! Parabéns! exclamou Luzinha, entusiasmada. E então porque choras?
- Porque tenho medo de descer, tenho medo de sair da minha ilha!
- Mas porque? Se subiste, és capaz de descer.
- Mas tenho medo de não conseguir, de cair, de me magoar… e se os galhos partem com o peso dos frutos suculentos que trago comigo?
Luzinha pensou um bocado, e propôs ao menino:
- O meu papá mostrou-me como se apanha a bola! Atira-me os frutos suculentos que eu os apanho, e assim podes descer sem medo.
Esboçando um sorriso, os olhos do menino brilharam de esperança. Começou então a atirar os frutos suculentos, mas Luzinha não apanhava nem um: estes batiam-lhe na cabeça e esborrachavam-se no chão, e o menino explodia em gargalhadas e ria, e ria… depois de atirar todos os frutos suculentos, desceu da árvore, calmamente passo-a-passo acompanhado pelas palavras de apoio de Luzinha. Quando atingiu o chão suspirou de alívio: tinha conseguido perder o medo de descer!
- Sou a Luzinha, tenho quase sete anos! E tu?
- Não sei, sempre vivi só aqui, nunca me deram um nome, disse o menino, baixando a cabeça.
- Então vou arranjar-te um! Deixa cá ver… és tão pequenino: vais chamar-te "Pineko"! propôs Luzinha.
- "Fixe"! Já tenho um nome! Sou o Pineko, sou o Pineko! La, la, la, la! rejubilou-se o menino com o seu novo nome.
- Bem, tenho de ir, Pineko, disse Luzinha, após um momento.
- Já? Que pena, eu gostava que ficasses mais um bocado…
- Eu também gostava, mas depois o meu papá fica preocupado.
O menino suspirou:
- Está bem… Adeus!
As águas do rio baixaram e deixaram a descoberto um caminho que ligava a ilhota à margem. Terminara assim a solidão na ilha, que não mais era ilha.

Saltitando e assobiando no seu pijama cor-de-rosa, Luzinha voltou a atravessar para a outra margem e continuou a sua caminhada, como se levada nas asas do vento. Chegou a um vale escurecido pelas nuvens carregadas onde jazia um jardim abandonado. O jardim era cinzento, sem folhas e onde apenas existiam lembranças de flores outrora coloridas. Caminhou rapidamente e assustada e atravessou o jardim. Ao chegar ao centro deparou-se com um menino de cabeça baixa sentado num banco.
- Olá! Eu sou a Luzinha! E tu? Como te chamas?
Nenhuma resposta. Luzinha voltou a tentar:
- Tenho quase sete anos! E tu?
Nada.
- O meu papá chama-me Luzinha porque ele diz que os nomes acabados como Luzinha são nomes bonitos. O teu nome é bonito?
Nada, e o menino baixava ainda mais a cabeça. Luzinha voltou a tentar:
- Coisinha, fofinha, anjinho, princesinha… são nomes bonitos, mas… já não sou um bebé! Já não gosto dessas baboseiras…
O menino apenas suspirava. Luzinha meteu a mão ao bolso e, sentando-se junto ao menino, perguntou baixinho:
- Queres um chocolate?
E aconteceu o inesperado: num murmúrio acompanhado por um movimento ligeiro da cabeça, o menino perguntou:
- Um chocolate?
Eufórica, Luzinha rasgou a embalagem, dividiu a guloseima em duas partes e estendeu um bocado para o menino, com a sua mãozinha trémula:
- Toma, é muito bom! Foi o meu papá que mo deu, mas é muito grande e não consigo comê-lo sozinha!
Indeciso e tímido, o menino abanava as perninhas por baixo do banco de forma nervosa.
- Toma! É muito bom! repetiu Luzinha.
Luzinha continuava com o braço estendido. Timidamente, os dedos do menino foram lentamente ao encontro do precioso chocolate. E ficaram um momento sentados no banco, mudos e com o olhar fixo no horizonte, que começou de repente a clarear, atirando as nuvens cinzentas para trás dos montes.
Luzinha deu uma dentada no seu bocado:
- Mmmmmmmm! Prova, é muito doce! O papá diz que faz muito mal aos dentes, mas eu sei que os meus vão cair todos e que depois vou ter novos. Por isso, podemos comer. Timidamente, o menino levou o seu bocado à boca e arrancou uma dentada. Ao mesmo tempo que mastigava e o chocolate desfazia o seu sabor na sua boca, as nuvens escuras desapareceram por completo e os raios do sol rasgaram o azul do céu, enquanto a relva crescia verdejante, as árvores enchiam-se de folhas e a agua voltava a brotar das rochas. O jardim explodia numa metamorfose de luz, vida e cor! Mastigando lentamente, o menino ergueu a cabeça e esboçou um leve sorriso ao cruzar o seu olhar com o de Luzinha.
- Pronto, vou andando.
Luzinha levantou-se, tocou no ombro do menino e continuou o seu caminho, saltitando e assobiando no seu pijama cor-de-rosa. Ao longe, voltou-se e acenou para o menino, rindo as gargalhadas.
- Obrigado… deste-me algo que eu nem sonhava existir, exclamou o menino. Mas Luzinha já estava longe e não conseguiu ouvir.

De regresso a sua casa de tijolos vermelhos e cerca branca no meio dos bosques, Luzinha foi deitar-se pois já era muito tarde e estava esgotada. Já na cama, contou as peripécias do seu dia ao seu papá, que lhe deu um enorme beijo e afagou-lhe carinhosamente os cabelos:
- Boa noite, Luzinha.
Pela manhã, à luz dos primeiros raios da aurora, Luzinha acordou. Ao abrir à porta para respirar a frescura das primeiras gotas do sereno, mas que surpresa: do outro lado da cerca estavam arrumados lindos presentes: uma caixa enorme que transbordava seixos polidos e pedrinhas coloridas, um gigantesco cesto cheio de frutos suculentos, deliciosos e frescos e um monumental ramo com as flores mais belas e insólitas jamais vistas.
- Que bonitinho!

Moral da história:
Se descobrires a inter-ajuda, o conhecimento e o apoio de alguém, esse alguém é especial. Se descobrires alguém que derruba as tuas barreiras, esse alguem é especial. Se descobrires alguém que te mostre o outro lado da existência, te ofereça instantes únicos, esse alguem é especial. E quando alguem é especial, merece todas as recompensas, merece o mundo!

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  • Current Residence: Madeira
  • Interests: gosto de pensar que tudo está interligado, e que todos os domínios dependem da influência de outros.
  • Favourite movie: uma vez que se descobre as potencialidades do celuloïde, o cinema passa a fazer parte da tua rotina.
  • Favourite band or musician: prefiro deixar-me guiar pela fluidez e conssonância do som envolvente com o estado de alma presente.
  • Favourite genre of music: Rock; jazz; bossanova; chill, preferência gradual por sons alternativos.
  • Favourite artist: Schiele; Warhol; Lichtenstein; Klimt; Miller; Madureira; Frezzato; Otomo; O'neill; Moore; Pratt...
  • Favourite poet or writer: Gabriel García Marquez; Michael Cunningham; Stephen King; Eça de Queirós; Robin Cook...
  • Favourite photographer: Ansel Adams; Henri Cartier-Bresson; Michael Langford; Helena Almeida...
  • Favourite style of art: Pop Art; Action Painting; Comic; Manga...
  • Operating System: XP Pro
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  • Favourite cartoon character: Tintin; Wolverine; Marv (that bastard...); Garrison; Akira; Homer...

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:iconyellowish:
gosto das tuas historias:)

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Cap ou pas cap?
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:iconostanine:
Thank you for watching my work :)
Obrigado :thanks:

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frames of nine
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:icondav-ictim:
you're welcome! :nod:

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victime d'un paradigme
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:iconcomplejo:
thanks for add me
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:icondav-ictim:
:handshake:

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victime d'un paradigme
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:icond-mim-para-mim:
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d-mim-para-mim
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